O homem do café: a Transferência Periphérica como Quilombagem
DOI:
https://doi.org/10.71101/rtp.58.949Resumo
O artigo propõe a Transferência Periphérica como gesto clínico-político de quilombagem, reescrevendo o conceito psicanalítico de transferência a partir da escuta periphérica e de saberes afrorreferenciados. Por meio do caso do “homem do café”, descrevemos como corpos subalternizados negociam tempo, território e cuidado nas margens urbanas, tensionando a clínica universalizante. O argumento articula Lacan (transferência como laço e suposição de saber) e Hartmut Rosa (aceleração/ressonância) com Nêgo Bispo (ética do cuidado, reciprocidade e temporalidade ancestral), para deslocar o setting rumo a práticas situadas: roda, silêncio produtivo, hospitalidade, recusa e restituição social de saberes. A temporalidade do café/lenta, hospitalar, coletiva, contrapõe o imperativo aceleracionista, permitindo que a ressonância seja vivida como ritmo comunitário, não apenas experiência individual. Propomos indicadores clínicos de Transferência Periphérica (enraizamento territorial, coautoria, circulação de cuidados) e discutimos efeitos de reparação simbólica quando o setting se abre ao quilombo como projeto de mundo. Conclui-se que escutar desde a periferia não é um “tema” da clínica, mas um método que reorienta ética e técnica: a transferência deixa de ser somente dispositivo intrapsíquico e torna-se campo relacional ampliado, onde saberes ancestrais e práticas de vizinhança operam como condições de cura e de mundo.
Palavras-chave: Psicanálise periphérica; Transferência; Quilombismo; Ética do cuidado; Temporalidade ancestral.
